quarta-feira, 29 de julho de 2009

Malditas crianças no meu quintal

Quando se ser trapaceiro virou uma coisa ruim? Onde foi que nós erramos?

Sim, porque nem sempre as coisas foram como são hoje. Limpinhas, caseiras, separadas por cabos de conexão banda larga e televisões de alta definição.

O mundo na era de ouro (ou seria de prata?) dos videogames era sujo, violento - uma selva. Mas era justo: o forte sobrevivia por seu próprio mérito. E quem tinha os truques, tinha o poder. Era só para alguns segundos na frente da máquina para, com alguns toques, botar Iori "Oróxe" e Leona "Chupacabra" na tela de seleção de The King of Fighters '97 para chamar a atenção. Era um jeito de dizer eu não sou só mais um, me respeitem.

O mesmo para quem descobria as passagens secretas, a sequência do Sound Test para habilitar vidas infinitas e seleção de fases e que se você ligasse o console com uma fita, tirasse ela - com o bicho ainda ligado - e colocasse OUTRA no lugar, abria algum extra. Ou queimava o videogame e destruía a fita.

Mas o foco de hoje não é esse.

Se reparar bem, todo o conceito de fliperama era mais ou menos de uma casa de jogo ilegal controlada pela máfia.

Você tinha o cara que vendia as fichas - e que também fazia vezes de contador - e os clientes casuais, que aparecem de vez em quando, jogam e vão embora sem que ninguém ligue muito pra eles. Tem também aquele rapaz da alta sociedade que sempre morreu de vontade de se misturar com as "pessoas normais". Mas esse fatalmente vai ficar só olhando.

Do outro lado do espectro temos os viciados - esses, os mais perigosos. Eles fogem das suas obrigações diárias (no caso, aquela aula de matemática) e gastam todas as suas economias (no caso, os passes escolares ou o dinheiro do lanche) para passar a tarde toda jogando alguma coisa. Qualquer coisa. Na falta de algo bom, qualquer Crouching Tiger Hidden Dragon 2003 Super Plus serve. Um viciado não escolhe.

E aí finalmente temos o Don. O chefe. O maioral. O cara que sabe que pode fazer aquele combo infinito com o Chang Koehan, mas corre o risco de travar a máquina no 83o golpe caso algum dos golpes ímpares acerte em crítico. Mas tudo bem. Porque diferente dos outros que estão ali, ele não precisa chamar o Leão de Chácara para resetar a máquina. O Leão vem até ele.

É em torno dele que todos os outros jogadores se reúnem - não importa o que ele vai jogar. Mesmo que ele não jogue nada. É ele que tem um amigo no Japão que conta TODOS os segredos dos próximos jogos. É dele que o cashier não vai cobrar, caso ele esteja sem trocado naquele dia. Se bobear, arruma algum lacaio pra roubar um round, uma luta ou uma ficha.

"Deixa que eu garanto essa", diz ele seguido de um beijo da morte

Quem viveu, viu. Eram dias selvagens em terras de ninguém. E hoje nego não pode nem atravessar uma paredinha em paz. Frangotes.

Fernando Mucioli só joga jogos hardcore feitos para jogadores hardcore como ele mesmo

2 comentários:

Anônimo disse...

-- "PEHGA O HALFE Q EU GARANTO."

Ruby disse...

Cadê o videogame-arte, técnicas sagradas de virar o pleteto de ponta-cabeça pra tentar rodar?